

O começo do futebol no Maranhão é abordado no livro “Terra, Grama e Paralelepípedos – Os primeiros tempos do futebol em São Luís (1906 – 1930)”, escrito por Claunísio Amorim Carvalho, que será lançado no dia 24 (sexta-feira), às 16h30, na Escola de Arquitetura e Urbanismo (Rua da Estrela – Praia Grande), da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), durante o Simpósio de História do Maranhão Oitocentista.
Resultado do trabalho de conclusão do curso de bacharelado em História da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), em 2008, o livro apresenta ao leitor três fases distintas, que mostram a transformação gradual do modo da população de São Luís praticar o futebol.
Também formado em Administração pela UEMA e em Teologia pela Fateh, o autor é técnico ministerial em execução de mandados, da 1ª Promotoria da Infância e Juventude. Apaixonado por futebol, Claunísio Amorim Carvalho, 29, é torcedor do Sampaio Corrêa e do Botafogo desde os seis anos.
O autor informa que o futebol foi introduzido no Maranhão em 1906 pelo industrial Joaquim Moreira Alves dos Santos, mais conhecido como Nhozinho Santos, que deu nome ao estádio municipal. Maranhense, filho de portugueses, ele estudava na Inglaterra, na cidade de Liverpool, que depois ficou famosa mundialmente por ser a terra dos Beatles. É importante ressaltar que os ingleses difundiram o futebol para outros países, entre o final do século XIX e começo do XX.
Em 1905, ele voltou ao Maranhão, após a morte do pai, para administrar os negócios da família, que era proprietária da Fábrica Santa Isabel, produtora de tecidos, localizada no Canto da Fabril. No local, Nhozinho Santos criou o primeiro time do Maranhão denominado de Fabril Athletic Club (FAC), fundado em 1906. Posteriormente, o time foi rebatizado de Football Athletic Club.
Na área da Fábrica Santa Isabel também existiu o primeiro campo de futebol da capital, inicialmente conhecido como Campo do FAC e depois chamado de Estádio Santa Isabel.
Claunísio conta que a primeira fase do futebol no estado é caracterizada pelo elitismo dos participantes, pelo espírito cordial e cavalheiresco dos atletas e pelo amadorismo das relações. Todos os times eram oriundos de clubes sociais, onde eram realizados concorridos bailes e festas.
Na época, existiam em São Luís aproximadamente 80 equipes. Além do FAC, os times mais famosos eram o Luso, o Fênix e o Vasco da Gama. Aliás, muitos clubes locais homenageavam equipes de outros estados adotando nomes como Flamengo, Palestra, Bangu, Remo e Paysandu.
A segundo etapa apontada pelo autor é o momento da popularização do futebol, que ultrapassa os limites dos clubes de elite de São Luís para ocupar as ruas da cidade. A população passa a jogar futebol de forma lúdica, como brincadeira de rua, com bolas feitas de meia, de borracha e de bexiga de boi.
No período, começam a surgir times formados por operários das fábricas locais. Até escolas de catecismo contribuíram para a popularização da prática do futebol. Claunísio contou que, no período, existem relatos de jogos com público aproximado de cinco mil pessoas.
Se cresceu a prática, tornando o futebol um esporte de massa, aumentou também o sentimento de pertencimento aos clubes, o que acentuou as disputas dentro e fora do campo, com o surgimento de violência motivada pelos jogos, praticada por jogadores, dirigentes e torcedores. “O tipo de violência que a gente acredita que acontece somente hoje em dia, já era praticada naqueles tempos”, afirmou o autor.
O pesquisador ressalta que nos jornais da época há muitos registros de reclamações da população sobre as peladas de futebol disputadas por crianças nas ruas. Ele explica que a elite da capital idealizava um comportamento que tivesse semelhança com o de moradores de cidades como Rio de Janeiro ou Paris. “Existia até um rígido código de postura que regulava o comportamento dos moradores”, completou.
Dos times da atualidade, somente o Sampaio Corrêa – dono da maior torcida do estado – já existia no período. O nascimento do clube em 1926 é contado em “Terra, Grama e Paralelepípedos – Os primeiros tempos do futebol em São Luís (1906 – 1930)”.
O último momento é referente à profissionalização do futebol no Maranhão, com a criação de ligas e campeonatos. Foi a época em que surgiu a Seleção Maranhense de Futebol, que disputou várias edições do campeonato brasileiro de seleções. Também é o momento da promoção de encontros com times de outros estados. O primeiro clube a visitar São Luís foi o Clube do Remo do Pará, que veio em 1916. Igualmente passaram por aqui equipes do Piauí, Ceará, Pernambuco, Amazonas e Rio de Janeiro. Dos times cariocas, o Botafogo foi o primeiro a desembarcar na capital maranhense em 1927.
“É um período marcado pelas disputas entre dirigentes. Em alguns anos foram disputados dois campeonatos, organizados por ligas diferentes”, disse Claunísio.
Ele acrescenta que apesar de ter acontecido uma expansão da prática, alguns cronistas e dirigentes foram resistentes à profissionalização do esporte, porque acreditavam que o espírito amador e cavalheiresco do começo se perderia com o pagamento de salários aos jogadores. “Eles afirmavam que os atletas não teriam mais amor à camisa do time e se tornariam mercenários”.
Sobre o espírito cordial nos primeiros tempos, o autor lembra que quando times de outros estados vinham para a capital eram recebidos com festa pelos atletas, dirigentes e torcedores. “Verdadeiros banquetes eram oferecidos aos jogadores visitantes. Perdendo ou ganhando, eles eram exemplarmente tratados”, completou.
Uma outra curiosidade é que naqueles tempos os termos futebolísticos eram todos em inglês, ou seja, escanteio era corner, placar era score e zagueiro era back.
Para escrever “Terra, Grama e Paralelepípedos – Os primeiros tempos do futebol em São Luís (1906 – 1930)”, Claunísio Amorim Carvalho pesquisou registros impressos, durante 14 meses, na Biblioteca Pública do Maranhão e no Arquivo Público do Estado. O livro possui 252 páginas e 62 fotografias. No dia do lançamento, a publicação será vendida pelo valor de R$ 25.